Desemprego já atinge as ocupações mais qualificadas

O desemprego no Brasil já chegou ao setor tradicionalmente menos vulnerável do mercado de trabalho. Pessoas com ensino médio e idade superior a 25 anos representam 49,5% do total de desempregados no País. Entre aqueles com ensino superior, a parcela é de 11%. Já os que se intitulam chefes de família – maioria masculina – somam 26% dos desempregados.

O total de brasileiros sem emprego hoje é de 11, 1 milhões, ou 10,9% da população economicamente ativa, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE. Já pelos cálculos da pesquisa do Dieese e da Fundação Seade, feita em cinco regiões metropolitanas, o índice é mais assustador: 15%. O Dieese e a Seade, em lugar de apenas aferir o número de pessoas que estão procurando emprego, faz visitas a residências e entrevista as pessoas.

A região Nordeste, bastião de resistência do emprego em anos recentes, foi a que registrou maior alta no índice de desemprego, segundo o IBGE: 13%.

A OIT (Organização Internacional do Trabalho) prevê que até 2017 haverá um brasileiro ou uma brasileira entre cada grupo de cinco desempregados no planeta.

Essa série de má notícias foi objeto de debate durante o seminário “Enfrentando o Desemprego – Desafios da Luta Sindical”, organizado pelo Dieese e realizado nesta terça, dia 24.

Na parte da manhã, foi apresentado o diagnóstico do mercado de trabalho, pelos pesquisadores Lúcia Garcia, do Dieese, e Paulo Baltar, da Unicamp. Logo após, dirigentes das centrais sindicais comentaram a conjuntura. Quem representou a CUT foi Wagner Santana, o Wagnão, secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A atividade seguinte incluiu uma roda de propostas apresentadas por dirigentes sindicais. Câmaras setoriais para elaborar planos de reativação da economia, ampliação do prazo do seguro-desemprego e criação de frentes de trabalho foram algumas ideias trazidas pelos sindicalistas. Os assessores do Dieese vão elaborar propostas a partir das sugestões.

Se não bastassem as más notícias propriamente ditas, pairava uma dúvida entre os participantes: como dialogar e apresentar propostas quando o governo central é ocupado de maneira ilegítima, fruto de um golpe?

Usar as reservas cambiais

No entanto, isso não impediu que o seminário apontasse caminhos. Em sua fala, Wagnão lembrou que o Brasil hoje tem grandes reservas cambiais, e parte delas poderia ser usada para investimentos que reaquecessem a economia. “É necessário, nesta conjuntura, ter US$ 370 bilhões de reservas cambiais e ficarmos sentados em cima deles? Podíamos usar parte disso para o fortalecimento do Estado”, disse o dirigente.

O metalúrgico lembrou também que é necessário encontrar alternativa para as empresas hoje impedidas de operar em função da operação Lava Jato. “Temos de achar uma saída para firmar acordos de leniência para que não fique na mão de um juiz de Curitiba a decisão sobre qual empresa pode ou não operar. Isso é papel do Executivo, do Legislativo ou da mais alta instância da Justiça, não de um juiz de primeira instância”, afirmou.

Ele refere-se a proposta de permitir a volta ao trabalho de empresas do setor de petróleo e gás, desde que os desvios de dinheiro público comprovados sejam devolvidos à União e os executivos corruptos condenados.

Na mesma manhã, o cenário ficou ainda mais sombrio, com o anúncio de medidas de ajuste fiscal anunciadas pelo interino Temer, que incluem entregar a exploração do pré-sal para empresas estrangeiras e acabar com o Fundo Soberano do Pré-Sal, criado para, no futuro, financiar educação e saúde públicas.

A luta, a julgar pelos indicadores e pelos sinais, deve recrudescer. “E nós não podemos deixar de representar os trabalhadores justamente no pior momento da vida deles, que é a demissão. Temos de encarar isso”, afirmou o técnico do Dieese Fausto Augusto Júnior.

Wagnão, por sua vez, lembrou da necessidade de disseminar a organização por local de trabalho em todos os setores, como forma de fortalecer o movimento sindical. “Tem de haver um forte enraizamento do sindicato na vida dos trabalhadores, e isso se dá por intermédio da organização no local de trabalho”.

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