Governar para o pobre é o motivo da perseguição, diz Lula

Um dia após os procuradores da República Daltan Dallagnol e Henrique Pozzobon substituírem as provas cabais por forte convicção para acusar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de comandar um esquema de corrupção na Petrobrás, o petista concedeu uma coletiva em São Paulo.

Na quinta-feira (15), logo no início da sua intervenção, Lula disse que não faria um show de pirotecnia “como fizeram ontem”. Muito menos iria se comportar como alguém perseguido ou que estivesse reivindicado um favor.

Seria uma declaração de um cidadão indignado com as coisas que aconteceram e que estão acontecendo neste país, declarou. “Neste país tem pouca gente com a vida mais pública, mais fiscalizada do que a minha. Isso desde o tempo em que eu era dirigente sindical nas greves de 1968 e 1969.”

Lula ressaltou que a perseguição está diretamente ligada ao sucesso de seu governo. “Quando começamos a dar certo na presidência, em 2005, tentaram fazer o que fizeram com a Dilma agora. Parcela da mídia brasileira e do Poder Judiciário agiu do mesmo jeito. O objetivo era tirar o Lula já em 2005”, disse.

Para o ex-presidente, o que desperta a ira de parcelas do país é a inclusão do povo pobre no orçamento do país.

“Quando entrei, falei que aqui não ia mais se falar em gasto quando se tratasse de educação. Mas de investimento. Esse país não seria mais só exportador de soja, mas também de conhecimento. Foi aí que fizemos a quantidade de universidades federais que fizemos, Fies, ProUni”, recordou.

Show de horrores

Segundo Lula, a caçada ao seu legado é parte do mesmo processo que vitimou Dilma. “Convocaram uma coletiva para mostrar o crime que o Lula cometeu. Até pensei em ir para a China me esconder, será que esqueci de algum crime que teria cometido? E descobri que tanto meus acusadores, quanto parte da imprensa brasileira estão mais enrascados e mais comprometidos do que pensavam que eu estava. Porque construíram uma mentira, uma inverdade e o prazo está chegando ao fim. Já cassaram Cunha, já elegeram Temer pela via indireta, pelo golpe, já derrubaram Dilma. Agora tem que definir um mocinho e um bandido, dar um desfecho, acabar com vida política de Lula.”

Para ele, as provas viraram questões secundárias. “A lógica (das investigações) não é mais a dos autos do processo, é a da manchete dos jornais. Quem vamos criminalizar pela manchete, quem vamos demonizar? E está acontecendo isso desde 2005. O PT é tido como partido que tem de ser extirpado da história brasileira. Assim fizeram com a Dilma e assim querem fazer comigo”, avaliou, antes de voltar a negar as acusações que lhe atribuem.

“Dedicaram-me um apartamento que não tenho, uma chácara que não é minha. Disseram que sou o ‘comandante máximo’ de um esquema corrupção. Eu tenho a convicção de que quem mentiu está numa enrascada”, falou.

Ao citar o caso de um helicóptero com 400 quilos de cocaína do deputado estadual Gustavo Perrella (SDD-MG) apreendido em 2013, ele exemplificou como a justiça atua de forma seletiva e arrancou risos do público.

“Eles pegaram um avião com 450 quilos de pasta de cocaína. Eles viram o avião. Eles pegaram a cocaína. Eles tinham a prova, mas eles não tinham a convicção”, comentou, em alusão à já classifica frase do procurador Dallagnol.

À disposição da Justiça

Lula voltou a dizer que está à disposição da justiça, mas cobrou respeito. “Vou prestar quantos depoimentos forem necessários, mas uma coisa têm de aprender, estão tratando com um cidadão que conquistou o direito de andar de cabeça erguida neste país. Provem uma corrupção minha que eu vou a pé para cadeia”, desafiou.

O ex-presidente apontou também a necessidade de fortalecer instituições como o Ministério Público Federal, mas alertou que a ânsia por cinco minutos de fama podem comprometer um trabalho honesto.

“Continuo com a mesma crença que tinha antes, os companheiros que compõem o corpo do MP têm de ficar muito atentos porque não podem impedir que meia dúzia de pessoas estraguem a história de uma instituição tão importante para este país e que eu ajudei a  construir na Constituição de 1988.”

Culpado por olhar para os pobres

O problema de adotar uma espiral de mentiras, defendeu, é que uma falácia chama a outra. “A desgraça de quem conta uma mentira é que precisa passar a vida mentindo. Disseram que eu tinha coisas que não tinha e se não sabe como dizer, peçam desculpas a Lula. Não continuem tentando inventar coisa para justificar a primeira mentira”, lamentou.

Lula cobrou ainda da imprensa o mesmo destaque que deram à apresentação dos procuradores e disse acreditar que seus méritos são os grandes responsáveis pela ojeriza que causa em seus adversários.

“Espero que tenha o mesmo destaque que meus acusadores tiveram ontem. Só igualdade e oportunidade de as pessoas poderem ouvir. Porque no fundo, no fundo estou querendo falar com mais pobres. Estou orgulhoso de saber que a perseguição a mim é pelas coisas boas que fizemos neste país.”

Militância na rua

Do lado de fora do hotel onde Lula fez seu pronunciamento, centenas de militantes se apinhavam na expectativa de ver o ex-presidente e manifestar apoio. Bandeiras de movimentos sociais se misturavam com as do PT. Por ali, passaram diversas lideranças políticas que foram acompanhar o pronunciamento do petista.

“Eu tenho certeza que o Lula é inocente. O maior crime do Lula foi ter feito os pobres desse País terem dignidade. Hoje, vemos pobres, negros e mulheres no poder, isso só acontece porque o Lula foi presidente”, afirmou Helena Adami, professora da rede municipal.

Logo após encerrar seu pronunciamento, Lula saiu para saldar a militância e foi ovacionado pelas centenas de pessoas. O ex-presidente precisou do auxílio de uma escada móvel para conseguir enxergar todos e agradecer o apoio.

Pouco depois das 14h30, os manifestantes começaram a esvaziar o local, liberando as vias para os carros.

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