Um ano depois, o medo ainda vive em Mariana

Dona Odete Cassiano Martins inclina o corpo para frente e abaixa a cabeça. Como se quisesse esconder a dor que sente, cobre o rosto com a mão esquerda. Entre os dedos, escorrem as lágrimas. “São 6 remédios por dia, dois para conseguir dormir. Mesmo assim, passo noites acordada, pensando sobre o meu futuro e dos meus filhos. Pensando se a lama não vai voltar”, lamenta a aposentada e pequena agricultora de 59 anos.

Um ano atrás, no dia 4 de novembro, dona Odete sobrevivia da aposentadoria e da lavoura que plantou em seu terreno. A propriedade havia sido comprada cinco anos antes, após uma inacreditável sequência de fatos que ligam sua vida à Samarco.

“Durante 25 anos, obras dessa empresa (Samarco) passaram no quintal de minha antiga propriedade. Não havia qualquer respeito. Construíram três minerodutos em meu terreno, a obra durava noite e dia, havia sessões de solda durante a madrugada”, lembra dona Odete. “Quando juntei um dinheiro, quis ir para longe. Comprei um terreno que ficava a 6 km da antiga casa, eu queria distância absoluta da Samarco”, explica.

No dia 5 de novembro de 2015, novamente a Samarco foi bater à sua porta. “Foi horrível. A lama arruinou minha lavoura, até hoje nada nasce, o solo foi completamente contaminado. Na minha casa tenho as marcas da lama. Desde então, minha vida nunca mais voltou ao normal”, afirma dona Odete.

O caso da pequena agricultora, que hoje não tem mais uma lavoura para trabalhar, não é isolado. São milhares de pessoas que aguardam que a Samarco, empresa responsável pela barragem Fundão, assuma a responsabilidade do crime que cometeu.

Às vésperas de completar um ano do maior crime ambiental da história brasileira, as vítimas do rompimento da barragem de rejeitos Fundão acumulam burocracia e doenças psicológicas. Segundo os atingidos por barragens, ao menos 6 pessoas já morreram em decorrência de depressão.

“A lama acabou com a vida de toda a minha comunidade. O caranguejo, que garantia nosso sustento, morreu. Vivemos por pura teimosia, tomando remédios contra a tristeza”, afirma Elimar Silva de Oliveira, 45 anos, que vive na cidade de São Mateus, no Espírito Santo.

Com a chegada da lama, a cidade de São Mateus perdeu uma de suas principais fontes de renda, a caça aos caranguejos e a pesca de camarões e tilápias. Até hoje, não conseguiram ressarcimento pelas perdas do último ano. “Eu choro todo dia, não tenho como pagar minhas contas e nem sei o que dizer aos meus filhos”, lamenta a pescadora Cláudia Aparecida, de 36 anos, também moradora de São Mateus. “Os poucos caranguejos que sobraram, tem anomalias, vem com duas cabeças, um grudado no outro. Quando a maré sobe, a lama cobre de novo todo o mangue. A gente insiste, mas não tem jeito. A Samarco alega que não vai nos ajudar pois não reconhece que a lama da barragem tenha nos prejudicado.”

Povo contra povo

As vítimas da Samarco afirmam que buscam um acordo coletivo, a fim de garantir que a cidade seja reconstruída pela empresa e que seja preservada a memória da tragédia que atingiu a cidade. Porém, representantes da companhia estão procurando individualmente os atingidos pela barragem.

“É uma tática deles para quebrar o movimento. Eles procuram algumas pessoas isoladamente e fazem propostas, oferecem dinheiro e até a reconstrução da casa. Tem morador que estava no movimento com a gente, fechado, e depois começou a falar mal. Depois fomos saber que tinha recebido dinheiro da Samarco em negociação paralela”, afirma dona Odete, que também foi procurada pela empresa. “Eles queriam que eu desistisse do movimento, que aceitasse uma indenização pequena. Nunca farei isso, vão ter que nos dar o que nos tiraram.”

A medida tem gerado uma situação desconfortável na cidade de Mariana. Impedida judicialmente de continuar exercendo a mineração na região, a Samarco tem utilizado, segundo os atingidos pela barragem, a população de Mariana contra as vítimas.

“Desde o rompimento da barragem a empresa, em articulação com a mídia, tem feito uma campanha para colocar os moradores da cidade contra os movimentos que lutam pela responsabilização do crime de Mariana e inclusive contra atingidos pelo rompimento da barragem. Infelizmente, a cidade, assim como muitas outras em Minas Gerais, dependem do funcionamento das mineradoras, tanto pelos empregos diretos como pela economia local das cidades que gira em torno das empresas. A população de Mariana quer empregos e retomada da vida que tinha na cidade e essa dependência perversa que se criou com a Samarco faz com que a demanda mais imediata seja para a volta das atividades da empresa, mas a resposta não pode ser essa”, afirma secretário nacional do Meio Ambiente da CUT, Daniel Gaio.

O dirigente Cutista explica que “a CUT compreende a demanda imediata por empregos, mas sabemos que o que o povo realmente deseja e necessita são empregos e salários dignos, seguros e com garantias de direitos e não ficarem dependentes de um modelo que lucra através da exploração seus trabalhadores e trabalhadoras, dos recursos naturais e que gera impacto devastadores no meio ambiente.”

No último mês de agosto, a Justiça anulou uma espécie de “acordão” que havia sido firmado entre a Samarco, Vale e Billinton com os governos federal, de Minas Gerais e Espírito Santo, que destinaria apenas R$ 20 bilhões para reparações ambientais e sociais em toda a região.

O valor foi contestado pelo Ministério Público Federal, que pede R$ 155 bilhões para as vítimas e pede que os atingidos pela barragem participem dos processos de negociação entre as empresas e os governos.

O golpe e a lama

Gaio lembra que a atual conjuntura política do País, recém entrado em um governo gerado por um golpe parlamentar, pode agravar a situação das vítimas. “Nos últimos meses temos denunciado e lutado contra uma serie de medidas que fragilizam cada vez mais as garantias de direitos dos brasileiros e brasileiras e ameaçam conquistas históricas dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, e sabemos que as ameaças em relação a questões ambientais também são grandes. Caso se confirmarem, a mudança no licenciamento ambiental e o novo código mineral por exemplo, pode dificultar ainda mais o processo de reparação das vítimas que já tem sido lento e muito difícil, podendo inclusive deixar brechas maiores para que tragédias como o crime de Mariana se repitam”, afirma o dirigente, lembrando que perseguições aos movimentos que amparam as vítimas pode ser um dos caminhos encontrados pelos golpistas.

“Uma outra questão que não deixa de ter relação com a luta dos atingidos, é a crescente criminalização dos movimentos que estamos presenciando no Brasil. A perseguição de lideranças, repressão de manifestações estão sendo feitas de forma indiscriminada para fragilizar as resistências ao golpe”, encerra Gaio.

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