Quando médicos optam por ódio e ideologia

Nesta semana tornaram-se notórios os comentários de médicos em um grupo no Whatsapp sobre a situação de saúde da ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que desencadeou em sua morte na sexta-feira (3).

A sua partida se dá em um momento de crise no país, de golpe instalado, em meio a um longo período de perseguição e pressão política, jurídica e midiática contra o Partido dos Trabalhadores (PT), a CUT, os sindicatos e os movimentos sociais. Também num clima de ódio criado por alguns setores na sociedade.

A conversa da médica reumatologista Gabriela Munhoz, que dias depois foi demitida do Hospital Sírio-Libanês, resultou numa reflexão sobre a postura desta categoria, desses profissionais que optam por uma postura ideológica quando, na verdade, deveriam estar à serviço da vida, da solidariedade, da superação do sofrimento.

Gabriela divulgou os resultados sigilosos de exames de Dona Marisa e, não bastassem as piadas e os risos, como no caso em que o neurocirurgião Richam Faissal Ellakkis, agora também demitido de um convênio para o qual trabalhava, diz para ela um “ainda bem” para o fato de a esposa de Lula não ter sido levada imediatamente à UTI, o assunto teve repercussão.

Companheira há 43 anos do ex-presidente Lula, Dona Marisa ajudou a construir o PT, a CUT,  liderou marcha de mulheres quando seu marido foi preso pela polícia da ditadura militar, participou de greves, passeatas, enfim, ajudou na construção de um Brasil democrático.

Indignação popular

Esses profissionais devem ser punidos de acordo com o código de ética e juramento que fizeram à profissão, avalia a médica e sindicalista Juliana Salles, dirigente da CUT nacional. “Esse comportamento é fruto da situação conjuntural e reflete o ódio de classe. E se naturaliza nos meios profissionais como resultado indireto da perseguição jurídica, política e midiática das organizações que representam os trabalhadores”, diz.

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) também repudiou a divulgação dos dados sigilosos e instaurou um procedimento para checar a situação. Quando a família ou o paciente não autorizam a publicização das informações, o Código de Ética Médica proíbe qualquer vazamento, situação considerada infração grave.

Para o médico Thiago Henrique Silva, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, esta situação é inaceitável. “Se portaram de forma criminosa. Um médico ou médica que se porta dessa forma não merece ter um diploma”, observa.

Sobre o cotidiano dos médicos, Juliana relata que os profissionais de saúde lidam com situações delicadas no que concerne à vida das pessoas, mas é possível, sim, encontrar aqueles sem comprometimento com a profissão e que colocam posições pessoais à frente. “Assim como foi durante o processo ilegítimo do impeachment, quando vimos profissionais dizerem em redes sociais que não atenderiam quem estivesse de vermelho e a médica no Rio Grande do Sul que se recusou a atender familiares de petistas”, lembra.

Thiago lamenta a forma como a medicina é tratada por profissionais no Brasil. Segundo ele, em outros países, como em Cuba, a área é vista e ensinada de forma diferente. “Lá há uma ideia de que a medicina tem que estar a serviço das pessoas. Os médicos lidam com os pacientes como alguém que os está servindo, não como alguém superior que pode desdenhar dos seus pacientes. Há uma construção cultural muito forte em torno da honra e do compromisso com a vida, um legado da revolução e, isso, com certeza, contamina a medicina”, conclui.

Sobre a conduta dos profissionais nesta semana, o Movimento dos Médicos pela Democracia e a Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares soltaram notas em repúdio e a bancada do PT de São Paulo também se posicionou e protocolou representação contra cinco médicos que tiveram a mesma postura, exigindo a apuração das responsabilidades e a aplicação de sanções.

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