#Resista: organizações se unem contra governo e bancada ruralista

Organizações e entidades sindicais, ambientalistas, indígenas, de direitos humanos e do campo decidiram se unir em um movimento de resistência contra as medidas do governo Temer e da bancada ruralista que violam direitos humanos – especialmente de indígenas e de trabalhadores rurais – e colocam em risco a proteção do meio ambiente. O grupo lança hoje uma carta pública convocando outras entidades e a sociedade a aderirem ao movimento. Até o momento, cerca de 60 organizações já assinaram o documento.

Denunciar e resistir são as palavras que unem as organizações e entidades em um movimento coordenado de resistência. Com atuação nacional e capilaridade em todas as regiões, o grupo atuará em frentes parlamentares, jurídicas e de engajamento social e não poupará esforços para impedir que o governo Temer e os ruralistas façam o Brasil retroceder décadas em termos de preservação ambiental e de direitos humanos.

Os ataques à agenda socioambiental não são recentes, mas o enfraquecimento dos sistemas de proteção do meio ambiente e dos direitos humanos cresce exponencialmente desde que Temer assumiu a cadeira da presidência e, consequentemente, a bancada ruralista passou a integrar o centro do poder. Para o movimento, Temer representa hoje a maior ameaça que o meio ambiente e a agenda de direitos tem de enfrentar.

O atual presidente já ordenou cortes de verbas no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, determinou o sucateamento da Funai, abandonando os índios, e colocou um general na presidência do órgão, evidenciando a visão ditadora do governo para as questões indígenas. Vale lembrar também que, juntamente com o crescimento de desmatamento, 2016 registrou dois tristes recordes: o número de mortes no campo e a quantidade de conflitos por terra. Isso sem contar as barbáries mais recentes, como o brutal ataque ao povo indígena Gamela (Maranhão) e a chacina de trabalhadores rurais em Colniza (Mato Grosso). E quais são as áreas de maior conflito? Justamente as de expansão da fronteira, especialmente do agronegócio, mas também da mineração, dos projetos de geração de energia e de outras obras de infraestrutura.

Situações como essas podem ser apenas a ponta de um terrível iceberg. As MPs 756 e 758, por exemplo, reduzem áreas de proteção na Amazônia, enquanto a MP 759 beneficia a grilagem de terras, elimina o conceito de uso social da terra e extingue a reforma agrária. Outras medidas que liberam a venda de terras para estrangeiros e autorizam o uso indiscriminado de agrotóxicos já foram anunciadas por integrantes do governo. Diversos processos de demarcação de terras indígenas foram devolvidos pelo Ministério da Justiça e encontram-se paralisados – lembrando que o atual ministro da pasta ataca constantemente os povos indígenas. Já o Ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, que é investigado na Operação Lava Jato e também por grilagem de terras no Mato Grosso, negocia a redução de Unidades de Conservação na Amazônia e agora apoia um desastroso texto que pode reduzir a quase zero as regras de licenciamento ambiental no Brasil.

Fica claro que a aprovação de medidas propostas pela bancada ruralista resultará em maior concentração fundiária, inviabilidade econômica de pequenos produtores rurais, beneficiamento da grilagem de terras públicas e mercantilização dos assentamentos rurais e da reforma agrária, além de afastar o Brasil do cumprimento de compromissos internacionais assumidos em convenções sobre clima e sobre biodiversidade.

Muitas dessas propostas estavam paradas por falta de apoio popular ou até por desrespeitarem a Constituição, mas agora tais medidas encontram na bancada ruralista, que domina o Congresso e o Planalto, força para seguir no parlamento em velocidade recorde, via medidas provisórias, decretos e votações urgentes. Nem mesmo direitos garantidos pela Constituição estão a salvo.

Os principais retrocessos que podem vir por aí:

●     O enfraquecimento do licenciamento ambiental (PL 3.729/2004 – Lei Geral de Licenciamento)
●     A anulação dos direitos indígenas e de seus territórios (PEC 215/2000 – Acaba com demarcação de Terras Indígenas (TIs) e PEC 132/2015 – Indenização a ocupantes de TIs)
●     A venda de terras para estrangeiros (PL 2289/2007PL 4059/2012)
●     A redução das áreas protegidas e Unidades de Conservação (UCs) (MP 756/2016  e MP 758/2016 – Redução de UCs da Amazônia no Pará)
●     A liberação de agrotóxicos (PL 6299/2002 – PL do Veneno e PL 34/2015 – Rotulagem de Transgênicos)
●     A facilitação da grilagem de terras, ocupação de terras públicas de alto valor ambiental e fim do conceito de função social da terra (MP 759/2016)
●     O ataque a direitos trabalhistas de trabalhadores do campo (PL 6422/2016 – Regula normas do trabalho rural, PEC 287/2016 – Reforma previdenciária e PLS 432/2013 – Altera o conceito de trabalho escravo)
●     O ataque a direitos de populações ribeirinhas e quilombolas. (MP 759/2016 e PL 3.729/2004)
●     A flexibilização das regras de Mineração (PL 37/2011 – Código de Mineração)

Leia abaixo o manifesto:

Nos últimos anos, as agendas socioambiental, de direitos humanos e de trabalhadores do campo têm sido alvo de ataques sistemáticos por grupos de interesse instalados no Congresso Nacional e no Executivo Federal. Nem mesmo direitos garantidos pela Constituição estão a salvo.

Atualmente estes ataques ganharam uma nova dimensão. Em meio ao caos político que assola o país, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal fazem avançar, de forma organizada e em tempo recorde, um pacote de medidas que inclui violações a direitos humanos, “normalização” do crime ambiental e promoção do caos fundiário. Se aprovadas, tais medidas produzirão um retrocesso sem precedentes em todo o sistema de proteção ambiental, de populações tradicionais e dos trabalhadores do campo, deixando o país na iminência de ver perdidas importantes conquistas da sociedade ocorridas no período democrático brasileiro.

Às tentativas de aniquilação das políticas de reforma agrária e do uso social da terra, contidas na Medida Provisória (MP) 759, somam-se iniciativas de extinção de Unidades de Conservação, a facilitação e legalização da grilagem de terras e os ataques contra direitos e territórios indígenas.

Em conjunto, tais investidas buscam disponibilizar estoques de terras para exploração desenfreada e também para serem negociadas através do projeto que libera a venda de terras para estrangeiros.

A lista de retrocessos segue com as tentativas de enfraquecimento do licenciamento ambiental e da fiscalização sobre a mineração; a liberação do uso e registro de agrotóxicos, inclusive daqueles proibidos em diversos países do mundo; a ocupação de terras públicas de alto valor ambiental; a concretização das anistias a crimes ambientais e o ataque a direitos trabalhistas e sociais de populações camponesas e de trabalhadores rurais.

Para o avanço rápido desta agenda, governo e parlamentares armam tramitações expressas no Congresso e fazem uso desmedido de medidas provisórias, inclusive para temas que já se encontram em debate no legislativo, excluindo assim a possibilidade da participação da sociedade e de estudiosos dos temas.

Além de colocar em risco a nossa própria soberania e segurança alimentar, a aprovação de tais medidas resultará em maior concentração fundiária; na inviabilidade econômica de pequenos produtores rurais e da agricultura familiar, dos quilombolas e povos indígenas; no aumento da violência e da disputa por terras; no beneficiamento da grilagem de terras públicas e na mercantilização dos assentamentos rurais e da reforma agrária.

O desmatamento será impulsionado de forma decisiva, colocando por terra todo o esforço da sociedade que levou à redução do desmatamento na Amazônia em cerca de 80% entre os anos de 2004-2014, nos afastando do cumprimento de compromissos internacionais assumidos em convenções sobre clima e sobre biodiversidade, de direitos indígenas e direitos humanos. Este conjunto de fatores poderá potencializar as dinâmicas das mudanças climáticas, impondo graves prejuízos à economia, aos produtores rurais e à toda população do campo e das cidades.

A participação do governo na ofensiva orquestrada contra os direitos, territórios da diversidade e meio ambiente revela um retrocesso político histórico: além da renúncia à obrigação constitucional de tutela dos direitos difusos e de minorias, escancara uma concepção de País calcada no desprezo pela natureza e pelo conhecimento sobre ela em função de interesses econômicos imediatos, reproduzindo o modelo excludente de expansão do agronegócio e facilitando a implementação de projetos frequentemente ligados a esquemas de corrupção e má-gestão dos recursos públicos.

Diante do exposto, as organizações e movimentos dos mais diversos campos de atuação abaixo assinados se unem para denunciar e resistir à perversa agenda de desmonte das conquistas socioambientais, e convidam a população e demais setores organizados da sociedade a somarem esforços no sentido de impedir tais retrocessos.

Assinam:

1. 350.org

2. Actionaid

3. AdT/Amigos da Terra

4. AFES/Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade

5. ANA/Articulação Nacional de Agroecologia

6. Amazon Watch

7. APIB/ Articulação dos Povos Indígenas do Brasil

8. Apremavi/Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida

9. Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil

10. BVRio

11. CBJP/Comissão Brasileira Justiça e Paz

12. CIMI/Conselho Indigenista Missionário

13. Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

14. Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração

15. Comissão Pró-Índio de São Paulo

16. CONAQ/Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

17. Conectas Direitos Humanos

18. CNS/ Conselho Nacional das Populações Extrativistas

19. Consulta Popular

20. CPT/Comissão Pastoral da Terra

21. CUT/Central Única dos Trabalhadores

22. Engajamundo

23. Escola de Ativismo

24. FASE/Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional

25. Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social

26. FURPA/Fundação Rio Parnaíba

27. Greenpeace Brasil

28. Grupo Carta de Belém

29. GT Infraestrutura

30. IBASE/ Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas

31. ICV/Instituto Centro de Vida

32. IDESAM /Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas

33. IEMA/Instituto de Energia e Meio Ambiente

34. IMAFLORA/ Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola

35. IMAZO N/ Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia

36. INESC/ Instituto de Estudos Socioeconômicos

37. International Rivers Brasil

38. ISA/Instituto Socioambiental

39. Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais

40. MAM/Movimento pela Soberania Popular na Mineração

41. MCP/Movimento Camponês Popular

42. MMC/Movimento de Mulheres Camponesas

43. MPA/Movimento dos Pequenos Agricultores

44. MST/ Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

45. MTST/Movimento dos Trabalhadores Sem Teto

46. Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos – Diversitas/USP

47. Núcleo de Pesquisa e Extensão em Ambiente, Socioeconomia e

Agroecologia/NUPEAS-UFAM

48. Observatório do Clima

49. Organon/Núcleo de estudo, pesquisa e extensão em mobilizações sociais da UFES

50. PHS/Hospitais Saudáveis

51. PJR/Pastoral da Juventude Rural

52. RAMH/Rede Acreana de Mulheres e Homens

53. Rede Brasileira de Informação Ambiental

54. REDE GTA

55. Sinfrajupe/Serviço InterFranciscano de Justiça, Paz e Ecologia

56. SBE/Sociedade Brasileira de Espeleologia

57. SOS Mata Atlântica

58. Toxisphera Associação de Saúde Ambiental

59. Uma Gota no Oceano

60. União Brasileira de Mulheres/UBM

61. UNALGBT/União Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

62. Via Campesina

63. WWF Brasil

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